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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Para ser grande, sê inteiro:nada

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. 
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
De Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

É preciso demorar 46 anos para encontrar isto?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Faz por ti

Na semana passada, o João Negreiros fez o favor de me presentear com um dos seus inúmeros poemas. Em determinada altura, os poemas do João acompanharam-me, através do seu livro «a verdade dói e pode estar errada».

Deixo-vos com o poema que recebi e que fará parte do seu novo projecto «Manual da Felicidade»:

Faz por ti

Faz o Sol por ti antes que arda.
Faz a chuva por ti antes que chores.
Faz a Lua por ti antes do dia.
Faz um sonho por ti antes do pequeno-almoço.
Faz um filho por ti com alguém.
Faz um negócio por ti por dinheiro.
Faz um vestido, não por ti, mas pelo teu corpo.
Faz um caminho por ti antes que te doam as pernas pela falta de uso.
Faz um festival da canção, afasta a mesa da sala, uma escova como microfone, faz as canções todas do mundo por ti e as brilhantinas todas do mundo por ti.
Faz uma corrida por alguém e corta por ti, a meta.

Corta por ti uma laranja e sorve o sumo por uma pessoa, só se tiveres muita sede.
Faz por ti um facho... e alumia quem te segue.
Faz por ti com rigor, mesmo rodeado de indolentes.
Faz por ti com calma mesmo assolado por patrões.
Faz por ti a coragem e serás assustador sempre que for preciso.
Faz por ti a sabedoria e saberás sempre que estiveres calado.
Não faças pouco de ti.
Não faças pouco dos outros.
Faz por ti como o dia quando acordas.

João Negreiros

sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina

Há quase 10 anos, conheci Manuel António Pina...
Não foi numa qualquer apresentação literária ou tertúlia, onde conheci ao longo dos anos, muitos dos ilustres autores portugueses... fruto de mero acaso, Manuel António Pina deu-me boleia, a pedido do escritor Álvaro Magalhães... má sorte não saber da sua obra, antes de entrar para o carro... grande sorte, ter partilhado um tempo parco, mas delicioso, com o escriba, que agora se ausenta da vida terrena... 
Em poucos minutos, fiquei fascinado com a sua palavra e achei que o autor devia fazer parte da mesa de jantar que iríamos partilhar... com pena nossa, Manuel António Pina, apenas fazia um favor ao seu Amigo Álvaro Magalhães... levando-nos até ao restaurante e fazendo novo favor, ao nos devolver ao hotel.
A partir daí, a minha admiração nasceu... agora que parte, fica a minha homenagem e o meu pesar, por infelizmente, não ter partilhado mais um pouco da sua vivência....
Paz à sua alma.

"A poesia não serve para coisa nenhuma. Às vezes serve para alimentar egos, para fazer uns engates... mas a poesia é inútil. Pelo menos como eu a entendo. É gratuita. Não se compra, não se vende - embora haja muita gente a vender-se através da poesia. De qualquer modo, por algum motivo, os homens escrevem poesia, desde sempre escreveram poesia, apesar de tudo isto. E apesar de a poesia ser uma igreja com muito poucos fiéis".

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Vida mudou...

A Vida mudou
tudo é diferente
tudo é melhor
soube escolher
e preferi-te a Ti!
P.S. Hoje o Nuno Markl lembrou este jingle da Schweppes...
Adaptei-o ligeiramente...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Contra-relógio


estou nos blocos
estou num bloco para não ser falso
não é falsa a partida
parto de verdade
estou a sentir o ar da frente ficar para trás
mexo-me
corro
parece-me que rápido
estou rápido
espera
não vejo os rivais
não posso pensar nisso agora
devem estar à frente
partiram tão rápido
não deu para ver
o fumo do tiro de partida cegou-me os milésimos
e não os vi por pouco
foram-se
esforço-me
vou caçá-los
vou apanhá-los
vou ser melhor
e se não puder ser melhor vou pelo menos correr tudo o que sei
tudo o que as pernas querem
os gémeos fizeram a parte deles
e no início tive tropeços mas eles aguentaram-se e levantaram-me até chegar aos passos largos em que os quadríceps e o tronco me levantam a cabeça
agora o peito arde-me mas não posso respirar
tenho que chegar ao fim num fôlego
não ouço a multidão
a minha mãe não veio
o pai saíu para fumar
não interessa
a meta já ali está
não está ninguém à frente
nem passos atrás dos meus
devo ser o último
vão rir-se de mim
não os vi
passaram tão rápido que o fumo turvou-me
vou cortar
cortei
cortei-me
tenho uma marca no peito de uma fita dourada
não vejo nenhum
põem-me uma medalha
depois tiram-ma
anulam a corrida
não percebo nada
vão para me fazer perguntas para o jornal regional mas depois arrependem-se
vão para me dar os parabéns mas arrependem-se
a minha tia
o meu padrinho
o meu irmão
a minha mãe
o meu primo
o meu pai
vão para me beijar mas estacam
estacam todos e até eu
estacamos todos a olhar para os blocos
somos blocos
estão nos blocos
os poetas ficaram nos blocos a beber chá
pensei que a corrida fosse para ganhar
e então corri
não sabia que era para beber chá
não trouxe saquinho
trouxe o saco que tem uma toalha e uma garrafa de água
mas o saquinho de chá deixei na casa da minha avó
à minha espera para ficar forte
e volto para trás numa corrida lenta ao contrário
provo-vos o chá
e cansado bebo-o para me despertar
mas fraquinho tombo porque o saco que vos deram era pequeníssimo e só dava para todos
se sabia tinha ficado para trás de propósito para ser como são
não sabia
não fiquei
assim sou eu
fiquem comigo por favor que eu não tenho com quem ficar


João Negreiros, In a verdade dói e pode estar errada

Tenho a noção que, por vezes,
arranco,
acelero,
não espero,
fico à frente,
sem olhar para o lado...
sem me preocupar com quem está a(d)o meu lado...
Faço a corrida sozinho,
dito o meu ritmo,
objectivo
e vivo...
muito...
intensamente...
como se não houvesse amanhã...
Prefiro 1.000 vezes correr para(por) Ti!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Interruptor


Hoje
quando estava a sair de casa
olhei para o relógio e percebi que devias estar p'ra chegar

e então deixei a luz da cozinha acesa
porque é a que gasta menos
para que não encontrasses a casa às escuras na chegada

mas depois pensei melhor

ao chegares
vendo a luz acesa
podias pensar que eu estava em casa a fazer-te uma sandes de atum ou um cachorro
e ias ficar desiludida

porque eu estou a sair

e quando chegares já me fui

e vais sentir a mostarda ou a maionese no canto da boca
mas vai ser mentira

por isso
para não te desiludir
saio deixando atrás de mim a casa escura

para não te magoar


João Negreiros, in «a verdade dói e pode estar errada»

Há pessoas que têm o dom de nos fazer click...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O amor dos números

Dedicado ao cometa que iluminou a minha vida nos últimos seis meses...

5 dedos do pé
5 dedos da mão
faz agora marcha a ré
e atraca o coração

os ouvidos são para ti
os gemidos são os teus
sempre que a gente ri
é por ti e não por Deus

casta como a flor da abelha
livre como o sino que desaba
és bonita até ser velha
és bonita e não acaba

tens o corpo até aos pés
esbanjas razões p'ra viver
invejam-te de lés a lés
mesmo em jeito de te querer

a afeição que te tenho
na proporção do ódio por todos
é o amor que abocanho
que estrebucha com maus modos

e temos membros a rasgar cama
uivos a fazer de gritos
assim como a gente se ama
envergonha do amor os mitos

e sabes-me melhor que a mim
por levar a pele azeda
fazes-me tão ruim
és melhor que eu até queda

é que por mais que mexa
não chego aonde estás
e a beleza que em ti vejo
não é a mesma que me dás

mas em ti fica até bem
por ter sempre sua lógica
eu amo sem ter a quem
a rejeição antológica

que devia estar nos compêndios
a fazer de separador
os manuais fiz lendo-os
e lecciono males de amor

com as folhas reviradas
pelo vento que anuncia
és tão linda em minha mente
quando sais levas o dia

e fazes-te cara como o dinheiro
desprezas-me todo por ser inteiro
e sou o que implora por ti primeiro
com o suspiro mais profundo

tenho um ardor quase guerreiro
também imploro por ti segundo
sou o que implora por ti terceiro
amo de olhar e assim fecundo

ao mundo podre dou desdém desde o parto
os néctares e a ternura guardo-os para ti
imploro sem pudor sou o teu quarto
és perfeita desde o mal que te vi

e sou quem implora por ti quinto
a palavra decora só quando não minto
e sou quem implora por ti sexto
e esta demora é só um pretexto

para te contar os cabelos
que me sustentam o tédio
vou subir na sede de tê-los
como se o amor fosse um prédio

imploro por ti até ao fim dos números
os que tombam para além do caderno dos quadrados

da magia que me deitas sorvo os mais líquidos sumos
os que desejam assim não podem estar errados


João Negreiros

Tão interessantemente coincidente...
Assim FIm.

domingo, 28 de março de 2010

Tu messias mais


se ninguém te quiser ouvir grita
escala um arranha-céus e diz tudo
até que as entranhas se esvaiam em acordeões
até que sejas impossível de ignorar
e se te baterem bate a mais portas
e se te baterem mais usa a testa como aríete e entra-lhes nos pensamentos
tu sabes que tens razão
tu tens sempre razão
tu vais salvar toda a gente de si própria
tu sabes o segredo que lhes vai mudar as vidas
tu és o sopro que lhes falta quando assobiam
o som da trombeta
o guizo do chapéu
o rasgo do papel
o mago da magia
o marco do correio
o pico do cume
a água do dromedário
tu vieste para ajudar
tu só queres ajudar
então porque não te deixam?
porque não te sopram carinho ao ouvido e te chamam nomes feios que tu sabes não serem da tua família nem da afastada
a sociedade também foi feita para ti
um bocadinho foi
um buraquinho foi
porque não te deixam entrar lá?
porque não te deixam estar lá?
querem-te à chuva e ao frio
sem amigos
sem calor
sem pão
sem sal
não te dão nem um naco da tua própria carne
nem a luz do teu quarto
nem o silêncio da tua mente
e tu aceitas?
e tu ficas-te?
e tu não protestas?
seu banana
seu falhado
seu funcionário sem sindicato
sua mulherzinha que nunca votou
sua criancinha que limpa o prato
seu homossexual não assumido
seu cão sem pulgas
seu cabrão sem cornos
seu tronco sem pau
seu pau mandado
seu arado sem terra
seu dinossauro radioactivo sem cidade japonesa
seu lamparina sem petróleo que foi inundar uma gaivota
seu cabeça sem capacho
seu diamante
seu bruto
seu papa-açorda
seu caramelo
seu lambe-cus
seu
seu
seu
seu és tu
seu és tu ouviste
seu é contigo
seu é para ti acorda
já é noite
já foi dia
amanhã vai ser tudo isso outra vez e tu estás ao relento
não tens onde ficar
não tens lugar na terra e ninguém to vai dar se não esgravatares
procura
pede
come
ataca
implora
arrasta-te
resvala
escorrega
assusta-os
ignora-os
tu sabes que tens razão
e a tua razão é respirar
se respiras tens direito à vida
se tens direito à vida tens direito a chorar
se tens direito a chorar tens direito a voz
se tens direito a voz tens direito a que te ouçam
se tens direito a que te ouçam tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas
se tens direito a dizer algo a que lhes mude as vidas tens direito a mudar também a tua
não peças respeito
nasce respeitado
não implores por dignidade
apregoa a dignificação do Homem
não mendigues comida
acaba com a fome
não protejas os teus filhos
protege todos os filhos
não procures uma religião
faz o que um Deus bom faria
não ouças tudo o que te dizem
ouve todos os que falam
tens direito ao teu canto
e o teu canto é o de mudar tudo
tu podes mudar tudo
tu deves mudar tudo
tu sabes mudar tudo
repara nas pessoas e muda-as para melhor se elas quiserem
aproveita para ires melhorando também
dá-te como se fosses de borla
não peças nada em troca mas dá com um sorriso mais rasgado a quem te der um beijo no fim
não tenhas medo que te interpretem mal
aliás não tenhas medo que te interpretem
aliás não tenhas medo
guarda o melhor para os outros e o pior para ti
mas não sejas cruel contigo que és o único que tens
tens que ter noção do teu papel
e o teu papel é duro como se embrulhasse pregos ou cacos que não queremos nas mãos do senhor da recolha nem nos dentes do gato vadio
o que tu vais fazer agora porque é o único tempo que te pertence é mudar
mudar até que nada fica igual
até que esteja mesmo do agrado de todos
mas se por acaso no meio do teu percurso de conflito e mudança
no meio da tua jornada de luta pelo bem encontrares algo de profundamente belo
não lhe mexas
não lhe toques
pega numa cadeira de praia monta-a e senta-te calmamente a apreciar


João Negreiros, in "a verdade dói e pode estar errada"


Tive o prazer de conhecer e confraternizar na passada semana com João Negreiros, novo e seguro valor da poesia portuguesa, a convite da minha Amiga C.Law...
Momento para mais tarde recordar, num espaço (Frágil) que não pisava há mais de 15 anos, numa performance digna de ser gravada...

O João teve a amabilidade de me escrever algumas palavras no seu fantástico livro, "a verdade dói e pode estar errada":
«(...) os melhores poemas para os novos Amigos (...)»
Faço meus, os votos do João: os melhores poemas para vocês, meus Amigos!
Mudem tudo!
Eu vou cumprir a minha parte! Também mereço mais!

quarta-feira, 24 de março de 2010

If

Se eu consigo... tu também és capaz!

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!


Rudyard Kipling

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Invictus


Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


William Ernest Henley

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desistir de nós

Se eu voltasse atrás, o que faria?
Podia fazer tudo o que não fiz
poderia querer tudo o que não quis
sabendo, embora, que nada mudaria.

O destino decidiu o que seria
Falaste como fala uma boa actriz,
guião desenhado no quadro a giz
e disseste-me adeus, e chovia.

Percebo bem que não foste sincera.
O que ia acontecer era o que era
e um adeus não tem de ser desistente.

Mas se penso em ti e quero mudar
a vida não recua, está sempre a andar
e desistir de nós estava à nossa frente


Luís Naves

Com a devida licença e agradecimento ao Luís Naves (jornalista e blogger Corta-fitas e As penas do flamingo), publico este seu escrito brilhante que se adequa a tanta história...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir


Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adonis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica íntima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direcções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

A pensar muito em viagens... sentindo...
faria sentido... de outra forma?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Fab à Flor da Pele ou 4 Coreógrafos

procuro um rasto de Ti.

à flor da pele tropeço nos passos cansados.
à flor da pele trémulo e exausto
tapo todos os poros.
à flor da pele amordaço a esperança.
à flor da pele nado no suor derramado
lamento, encolho e sorvo a fraqueza.
à flor da pele conspiram lugares e olhares
mostro-me nu, estrangulo e mordo a inocência da carne.
mato!

à flor da pele, quebro e morro mais um pouco.
à flor da pele, procuro um rasto de Ti.

Rui Lopes Graça

A Fab é uma Amiga, simplesmente como o seu nick sugere...
tem a capacidade de fazer com que me perca...
Perco-me com ela, perco-me por ela ou simplesmente... perco-me...
Ontem teve o condão de contribuir para me reencontrar...

Excelente noite com os «4 Coreógrafos» no Teatro Camões, a cargo da Companhia Nacional de Bailado... (no pics allowed)

Isolda, de Olga Roriz, expressivo, dramático, apesar de pouco sincronizado...
"Tudo se passa entre o sonho e a morte. A recordação da dor e do prazer" e eu esqueci-me da dor e só pensei no prazer que estava a disfrutar...
Wagner fez toda a diferença, com o seu Prelúdio e Morte de Tristão e Isolda... tudo é romantismo na sua obra...


À Flor da Pele, de Rui Lopes Graça, o que mais gostei... pleno de intensidade, "uma pulsação abstracta dos corpos (...) uma fisicalidade intensa, um desespero de amor que aparece e reaparece e aparece novamente, uma ferocidade nos gestos deste homem e um ventre amoroso nesta mulher...",
senti-me «lá»... na cena de amor entre dois dos protagonistas...
Philip Glass, escolha soberba para «embrulhar» esta peça...


Fauno, de Vasco Wellenkamp, a escolha da Fab... ao som de Debussy...

Segundo o autor «no sonho erótico do animal demoníaco, procurei retratar a sua avidez sensual e, na imprecisão da sua humanidade, alcançar a beleza e os sinais irreprimíveis das emoções humanas.»
Fantástica, a instalação, no cenário, de uma árvore invertida... como fantástico foi um dos alinhamentos dos bailarinos que apenas posso reproduzir aqui através da foto do programa...

Strokes through the tail, de Marguerite Donlon... acompanhado de Mozart...
Para terminar, final em beleza, um misto de boa disposição e graciosidade de movimentos...

Excelente noite, melhor companhia... a merecer repetição...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sinto, logo existo...


Pessoa, by Lou@Palácio Pombal

Afinal, sinto falta de Ti... Dipendente?
;)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Acaso


No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;

E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal


Álvaro de Campos

Por/Puro acaso... encontrei hoje este poema no work...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Intervalo


"Quando quero sentir mais leve o peso que,
em mim, de mim me pesa, ando pelas ruas da
cidade velha porque sei que a tristeza delas
é ainda maior que a tristeza minha. Vou andando
ora devagar ora depressa, e, ao olhar o que passa
ou o que fica, é de mim que parto mais pesado e
é a mim que chego mais leve. Vou andando, com uma
imobilidade que se desloca, e vejo e oiço (...).
Ando sob a luz que se vira para dentro e por isso
escurece. Ando e sei que ter destino é um erro
que não se corrige. Por isso, nos meus passos há
todas as certezas que se mudam noutras tão
incertas como essas. Ando naquele intervalo entre
o que sou ao não ser e o que não sou ao ser.
(...) vêem-me sem me conhecer e assim ficam perto
de mim, que também não me conheço, nem sequer me
vejo passar, senão imagens de um eu que não sou.
Vêem-me, e eu sei que o ver não lhes diz o que vêem.
Por isso lhes agrado ou desagrado por razões que
são mais deles do que minhas. Ando sob a claridade
que começa a ser escuridão e, enquanto as luzes
não se acendem, há um hiato entre tudo e o seu
contrário, inversão de sinais, reverso de sentidos.
Ando e oiço os que falam sozinhos ou acompanhados.
Oiço as suas palavras inúteis, gastas e repetitivas.
Oiço os que dizem apenas o que já ouviram, cópias
de um original que nunca foi deles. Oiço os
medíocres que dizem a mediocridade dos outros para
negarem a sua. Oiço os infelizes que choram
a felicidade alheia por saberem que nunca será própria.
Oiço a voz deste tempo que é feita de exclamações
baixas, gritos calmos, desesperos mansos, angústias
medidas, suicídios mudos. Oiço as vozes que se
negam na raíz e se desmentem no auge.(...)"

Excerto do sublime texto de José Manuel dos Santos
in Actual 1892 (Expresso) de 31 de Janeiro de 2009.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Sem comentários.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Aguardo que amanheça...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Comando

Dois dias atrás, revejo uma colega de Lisboa, que me encara de alto a baixo e diz:
Pareces um Comando!
Tomo como cumprimento... desde miúdo que gosto da instituição castrense...
A minha cara, que já não era brilhante, devia ser de poucos Amigos...
a t-shirt preta ostentava um «fuera de serie», mas daí a Comando...
Estive para a corrigir: Comando, não! Prec sff!
Mas depois teria de dar uma série de explicações a alguém, que não iria perceber patavina do que lhe iria explicar...
Um dia, talvez conte aqui, uma estória com mais de 9 anos e que terminou de forma abrupta, por pura inconsciência, eventualmente representativa da idade que tinha na altura... um Prec, explico mais tarde o que é...

Em honra dos verdadeiros, deixo o «Se...»:

Se souberes estar calmo no meio da confusão,
Dominar o medo, nervos, músculos e coração,
Se confiares em ti, no teu chefe e no camarada,
Perdoando ao fraco e ignorante, a vaidade do nada;
Se souberes esperar sereno o momento preciso;
Resolveres num instante e agires de improviso;
E se, como o raio fulminante, lutares decidido,
E vencedor, generoso, respeitares o vencido;

Se souberes distinguir o bandido do ignorante,
E tratares ambos com justiça e amor clemente;
Se matares naturalmente, sem seres criminoso,
E sem ódio na alma olhares o futuro radioso;
Se fores como uma criança, depois de cada morte,
Renascendo para a vida na luz certa do norte;
E se, com amor e justiça, e sem hipocrisia,
Construíres das cinzas um novo ideal de harmonia;

Se suportares fome e a matares ao necessitado,
Se, a rebentares de sede, corpo doente e cansado,
Olhos abertos aos ventos, sem balas e mal dormido,
E ainda te arrastares, quase moribundo e ferido,
Se por mais um segundo de cada minuto e hora,
Mordendo os lábios de dor, seguires pela selva fora;
Se traçares um caminho de luz e de amor, a sorrir,
Abraçando irmãos de todas as cores, sem distinguir;

Se servires desinteressado e sem te servires,
Comendo o pão do trabalho e ainda o repartires;
E se, por fim, respeitares corpo e alma do teu irmão,
Humano como tu, semelhança do teu coração;
Então sim Soldado!... Tu passarás à nossa História,
Erguerás o futuro da Pátria, sem peias e escória;
Cumprirás só o teu dever, sem louvor... lutando,
Serás Homem, Militar e COMANDO.

Perdoem esta fase demasiado bélica... mas não a consigo evitar...